Episódica

Já perdi o sono por causa de uma canção que ficou palpitando na mente, feito um latejo. Por isso, inventei uma regra. Dessas que a gente leva para toda a vida e indica para os amigos com aquele ar de fajuta sabedoria: nunca misturar os momentos e as pessoas com música.

Explico. As músicas têm esse poder de fazer a gente se lembrar do que não deveria. As lembranças, danadas que são, insistem em retornar por meio das notas. Quando a cadência  se encontra com o córtex auditivo, você se lembra do que achava nem existir mais. Basta ouvir a música, reconhecer a harmonia, que o seu cérebro irá ativar, de forma muito sofisticada, detalhes que passaram rapidamente pelos sentidos e ficaram naquela parte da memória que a gente chama de esquecimento. E a piada de mal gosto é que, uma vez reconhecidas, essas memórias se manifestarão constantemente.

O cheiro da pele, o gosto do cigarro (cujas cinzas você via caindo pelo lençol, de vez em quando), o suor compartilhado, o gesto grave no meio da piada mais sacana, as palavras ditas em tom de súplica (um poeta diria que soariam bêbadas, sinceras e urgentes). Se lembra até de como era fácil tirar a roupa – um gesto mecânico desse, se torna meio que um ritual em alguns momentos -, olhar o teto e falar do que nem tem importância.

Chego a pensar que tudo o que devíamos esquecer – e que de fato esquecemos – fica preso à tessitura das canções que se misturam com os momentos e as pessoas. Não cometa esse erro.

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Intervalos consonantes

As pessoas desenvolvem suas obsessões de forma diferente. Eu, quando obcecada por uma melodia, tento ouvi-la todo dia, várias vezes (às vezes isso dura alguns meses ou anos). Mas, faço isso sempre intercalando outras que também são de minha estima e cuja harmonia se assemelham. Esses “intervalos”, nos quais insiro outras músicas pelas quais não estou exatamente obcecada, desencadeiam uma sensação de falta da música que de fato quero ouvir. Não é incomum me esquecer da melodia que é motivo da minha obsessão (pode ser um trecho de uma música, não necessariamente a música inteira) e registrar outros sons que, de tão parecidos, inflamam a necessidade de recuperá-la na memória, porque eu meio que preciso alimentar a obsessão. É uma forma saudável, se é que posso chamar assim, de usufruir da música sem que o excesso me faça enjoar dela. Sou assim com as pessoas também.

Born Under a Bad Sign

A imagem é mesmo muito marcante. Nas aulas de desenho aprendi que a dificuldade que a maior parte das pessoas encontra para desenhar existe porque criamos símbolos na nossa cabeça de tudo o que vemos ao longo da vida. Aí, quando vamos tentar desenhar algo ou alguém, desenhamos os símbolos e não aquilo que, efetivamente, estamos vendo.

Isso é curioso, porque quando penso em música a relação é parecida. Eu sempre tento cantar as músicas do meu jeito – ou do jeito que eu sei.  Mas, essa ideia de criar uma ideia simbólica sobre as coisas explica o fato de eu não conseguir cantar as músicas da Janis Joplin. Eu não consigo interpretar as músicas dela, porque o que ela faz já se cristalizou na minha cabeça. Também não seria capaz de imitá-la e nem acho que deva.

Algumas músicas “pedem” para que você as interprete. É o caso de Born Under a Bad Sign. Hoje, ouvi algumas versões dela e qualquer um consegue perceber que, apesar de uma base melódica comum, todo cantor vai tentar colocar algo de seu na interpretação. Acho isso bem bacana, porque a música acaba renascendo, de certa forma, na voz de cantores diferentes. É como se a imagem dessa música mudasse para cada um que a cantasse. Você pode perceber ao ouvir as versões de Albert King, do Cream, do Buddy Guy e da Nina Simone, só para citar alguns. Quando tiver gravado, posto a minha também que, claro, jamais será tão impressionante quanto a desses caras.

 

P.S.: Para quem não sabe: sou vocalista da banda Luigi e os Pirandellos e Born Under a Bad Sign tem sido um de meus desafios nos últimos ensaios.