– Juçara Marçal, “Toque certeiro, pra onde apontar” –


Me sinto uma anã tentando escalar sem muito sucesso os ombros de gigantes, ao tentar esboçar qualquer coisa sobre Metá Metá. Um trio que une a experiência afro-eletro-punk de Kiko Danucci, o sax abrasivo de Thiago França e a voz inquietante de Juçara Marçal numa combinação que não tem nada de adocicada. Metá Metá é um retorno às origens, ou melhor uma redescoberta delas, uma (re-)entrega às nossas origens africanas tão, ao mesmo tempo, brasileiras, pois sequer há fronteiras entre elas. Metá Metá é um hiato indissociável em nossa música, “uma beleza disforme, sem rosto/ sem nome, sem moderação”. Não é pra qualquer um, mas todo mundo se reconhece nesse som que nos carrega para lá adiante, num vem e vai que faz a gente se conhecer um pouco mais a partir do que veio antes de nós. E se conhecer é esse risco, esse ritual que é feio e às vezes dói.

Ouça Metá Metá: http://metametaoficial.com.br (os álbuns estão todos disponíveis para download).


– Miss Jill Scott, Words and Sounds –


Neste exato momento, estou escrevendo e ouvindo “Experience”, álbum de Jill Scott, pela primeira vez. Estou, também, me odiando um pouco por ter deixado para ouvir esse álbum só agora. Mas é a vida.

Jill Scott, indicação do querido Filipe Murbak, é um passeio pelo soul, R&B, jazz, hip hop, gospel. Jill não é só versátil na música, mas também tem um currículo que passa por aulas de inglês, publicação de poemas e até participação como atriz em séries de TV. 

Não bastasse ser uma cantora de voz potente e ágil, ela ainda é uma super compositora (na qualidade e na quantidade). Diz-se que quando foi lançar “Who is Jill Scott – Words and Sounds Vol 1”, ela apresentou 50 músicas à gravadora, que, claro, tiveram que ser reduzidas a um número mais comercializável. 

Junto a esse álbum, lançado em 2000, Jill lançou “Experience: Jill Scott 826+” (2001), “Beautifully Human: Words and Sounds Vol 2” (2004), “Collaborations” (2007), “The Real Thing: Words and Sounds Vol 3” (2007), “Live in Paris+” (2008), “The light of the sun” (2011), “Woman” (2015), o último com músicas criadas a partir de anotações de um antigo diário.

O primeiro álbum que ouvi dela foi “Woman” e me senti impactada. Ele faz você experimentar o dia a dia na vida de uma mulher, com todos os altos e baixos, seja no amor, seja no trabalho. É um álbum que transita entre uma pegada experimental aqui e um blues enérgico acolá. Se você não se sentir conquistado com “Say thank You”, não tem como sair incólume de “Coming to you”. 

Jill Scott é um caminho sem volta.

Ouça Jill Scott no Spotify: https://open.spotify.com/artist/6AVLthptCPhfrxlHadOBJD

Ana Cañas, Amor e Caos

Rapaz, acho que estou para ouvir Ana Cañas desde 2009 e os dias passaram tão rapidamente e tão desavidamente, que eu precisei de um #OuçaMulheres para colocar em dia a agenda musical.

Com Ana, divido algumas particularidades e gostos: 1. começar a cantar tardiamente; 2. gostar e se lembrar de como se sentiu a primeira vez que ouviu Ella Fitzgerald; 3. cantar e gostar de jazz (Ana começou a carreira cantando jazz); 4. se sentir meio sem um estilo definido e insistir nessa mistura para fazer sempre as mesmas coisas.

Formada em Artes Cênicas pela ECA, cheia das parcerias definitivas (Nando Reis, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Arnaldo Antunes, Lúcio Maia), desde que começou na música, Ana gravou “Amor e Caos” (2007), “Hein?” (2009), “Volta” (2012), “Tô na vida” (2015). Esse último, confesso, ainda não ouvi, e é o que ela mais considerou característico do estilo que escolheu para si mesma e com o qual se posicionou mais como artista do que como cantora.

É mais uma cantora que não se coloca em prateleira, apesar de a gente reconhecer que ela é bossa nova e rock’n’roll e é vocal jazz – vá lá ouvir os covers dela e confirmar. Mas a voz tem essas nuances apimentadas de Elis Regina. Uma agressividade que é só na intenção, o que faz a gente lembrar da Patti Smith. Mas isso sou eu tentando entender o que nem Ana entende. 

Ouça Ana Cañas no Spotify: https://open.spotify.com/artist/4v1mao101nIWvxzotCSKyz…

#AnaCañas #OuçaMulheres

P.S.: Ouça Ana Cañas no Sesc Rio Preto! Semana que vem ela vai estar aqui. Segue o eventono Facebook: https://www.facebook.com/events/567358390436374/

Referências Bibliográficas:

http://www.anacanas.com.br/index.php/biografia/

https://revistatrip.uol.com.br/tpm/entrevista-to-na-vida-novo-disco-de-ana-canas

Nikki Hill, Feline Roots

É sempre uma chateação, a coisa da comparação. Mas se isso convencer você a ouvir Nikki Hill, aí vai: já foi considerada a nova Aretha Franklin e foi comparada à Etta James. A melhor comparação, no entanto, veio da Minneapolis Star-Tribune: “If Tina Turner and Little Richard had a daughter and raised her with the help of uncles James Brown and Chuck Berry, she’d be like Nikki Hill.”. Apesar de entender as comparações, para mim, Nikki está mais para ACDC (que é uma de suas bandas favoritas).

Nikki tem três álbuns gravados: “Here’s Nikki Hill” (2013), “Heavy Hearts Hard Fists” (2015) e “Feline Roots” (2016). Conheci a cantora num SESC Jazz’n’Blues da vida e sempre quis ouvir mais do trabalho autoral dela. Um rock sulista, com tempero de blues, soul, reggae e funk. Funciona assim: a gente fica com a impressão de que vai ver um show de blues e se depara com um show de rock. Nikki apresenta o mesmo “problema” que Betty Davis: sua música não tem lugar em classificação nenhuma. E por isso vale a pena ouvir.

No palco, ao menos no dia em que a assisti, há duas protagonistas: sua voz potente e brilhante e o peso da guitarra. Algumas vezes, achei que ela nem estava se importando muito com a nossa presença ali, conversando com a banda, vibrando com os solos dos demais instrumentistas. Em sua música estão claras as raízes do gospel e a rebeldia de quem um dia teve de ser independente e adquirir autonomia sobre a própria vida. Mas como a autonomia é coisa que nem existe, estão lá, em cada letra, em cada nota, os traços de uma fusão perfeita de estilos que compõem Nikki como artista.

Ouça Nikki Hill no Spotify: https://open.spotify.com/artist/28Vn4HKpcOqzagc7tiAxNz

P.S.: Esse post faz parte da série #OuçaMulheres que criei para minha fanpage.

Tulipa Ruiz, o acerto e o desconcerto


Desde o primeiro álbum, Tulipa chegou chegando, mas também pudera. Ela vem de família de músicos e estudou canto lírico por 5 anos na adolescência. Na faculdade, cantou na noite acompanhando grupos musicais diversos. Ou seja, ela já começou cheia de bagagem.

Tulipa canta, compõe e desenha. Além de “Efêmera”, o primeiro disco, com o qual fez turnê pela Europa, América do Sul e EUA, gravou “Tudo Tanto”, “Dancê”, “Cortes Curtos” e “Tu” (meu favorito). As letras exploram o urbano e o natural e, para mim, eles se encaixam perfeitamente nas composições e, sobretudo, na voz dela, que é clara e tem uns vibratos docíssimos (mas não enjoativos). 

As músicas me sugerem o paradoxo do acerto harmônico combinado a um desconcerto presente nas letras. Uma voz afinadíssima, precisa, com todos os arranjos certeiros, agradáveis ao ouvido, combinados à dureza que é crescer e ter que construir uma vida em um mundo que já tem modelos prontos nos quais temos de nos encaixar. 

Em “Dois cafés”, por exemplo, música que está no disco “Tudo tanto” e em “Tu” (que é, para mim, a melhor versão), lidamos com a leveza de uma conversa em que, contraditoriamente, se expõe as dificuldades da vida adulta: “Tem que correr, correr/ Tem que se adaptar/ Tem tanta conta e não tem grana pra pagar/ Tem tanta gente sem saber como é que vai/ Priorizar/ Se comportar/ Ter que manter a vida mesmo sem ter um lugar”.

Tulipa também canta os relacionamentos humanos, cheios de tensões e de disputas de poder que se dissolvem em face do amor – mas continuam presentes. A famosa “Só sei dançar com você” usa a imagem da dança, na qual um conduz e o outro precisa se deixar conduzir. Durante as estrofes lidamos com a tensão de quem será conduzida na dança, tensão esta que se resolve (parcialmente, pois deixa um sinal de dependência no ar) no refrão “só sei dançar com você/ isso é o que o amor faz”.

Ouça Tulipa Ruiz no Spotify.

(Esse texto faz parte da série #OuçaMulheres que comecei na minha página do Facebook.)

Referência:

Enciclopédia Itaú Cultural

Betty Davis, Nasty Gal

Quando ouvi Betty Davis pela primeira vez, corri para a internet para procurar o que diziam suas letras, já que meu inglês mal falado me impedia de compreendê-las. Não encontrei quase nada. Apesar da barreira linguística, o conteúdo de suas músicas, o que elas significam quando você sente o groove, ouve as guitarras pesadas e o arranhado da voz é muito claro.

Betty Davis lançou poucos álbuns: o “Betty Davis” (meu preferido), o “They say I’m different”, “Is it love or desire” e o “Nasty Gal”. Para escrever esse texto, voltei a eles e encontrei o “The Columbia Years” – arranjado pelo trompetista Hugh Masekela, com participação de Herbie Hancock, John McLaughlin, Mitch Mitchell e Billy Cox -, no qual há, entre outras músicas, “Politician Man”, “Born on the Bayou” e a voz de Miles Davis dando sugestões a ela sobre as gravações. A qualidade dos álbuns não se deve só às parcerias definitivas, como se pode ver pelo “Columbia”, mas à própria Betty, que criava a maior parte de suas músicas e se não as produzia, escolhia a dedo quem o faria.

Qualquer uma de suas músicas indicam que ela era uma artista que não se coloca na prateleira do funk, do soul, do blues ou do rock. Talvez por isso Betty Davis não tenha conseguido o espaço merecido na época em que lançou os discos, além do fato de que se tratava de uma mulher negra falando abertamente sobre sexo no início dos anos 70 nos EUA. Vá ouvir “Nasty Gal”, “Talkin’ Trash”, “Walkin up the road” e entenda.

Se é exagero dizer que ela deu sua contribuição ao fusion, não é exagero dizer que sem Betty Davis não teríamos o “Bitches Brew” do Miles, disco em que o trompetista se rendeu à mistura do rock com o jazz, graças à influência da cantora (que foi sua esposa). Como cantora, não acho que ela era inventiva como uma Ella ou técnica como uma Aretha – o que não significa que ela não estudava. O que se destaca nela, para mim, é sua voz rasgada, agressiva, é a força que vem da sua personalidade vibrante e até um pouco irredutível. 

Betty desistiu (infelizmente!) da carreira de cantora por negar-se a se curvar ao que a indústria exigia dela (aparentemente, as gravadoras queriam que deixasse de explorar sua sexualidade nas músicas, já que houve até boicote às suas apresentações). Queria ser livre para criar à sua maneira. Recusou ser produzida por Eric Clapton (por considerá-lo muito careta) e disse outros sonoros “nãos” até refugiar-se na Philadelphia e viver uma vida reclusa, como, aliás, vive até hoje.

Ouça Betty Davis no Spotify: https://open.spotify.com/artist/5Ryxgm3uLvQOsw4H5ZpHDn

P.S.1: em agosto do ano passado, saiu o documentário “Betty – They say I’m different”, do diretor Phil Cox, que tinha um pouco esse objetivo de tornar conhecida uma cantora tão importante como ela. Tô louca pra ver!

P.S.2: esse texto faz parte de uma série de texto que pretendo fazer na minha página do Facebook a cada 15 dias, se eu conseguir, pois frequência é complicado.

Referências:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/08/betty-davis-tem-trajetoria-revista-em-documentario-que-esta-a-caminho-do-brasil.shtml

https://oglobo.globo.com/cultura/estreia-no-brasil-documentario-que-desvenda-misterios-de-betty-davis-pioneira-do-funk-americano-23252674

https://revistatrip.uol.com.br/tpm/betty-davis-a-cantora-que-marcou-o-funk-e-antecipou-lutas-importantes-do-feminismo