Robert Johnson e o demônio do blues

Não sei se Robert Johnson, caso pudesse voltar no tempo e reescrever a sua história, teria optado por uma vida comum, livre do estigma que se criou (e que ele alimentou) para si mesmo. É certo, no entanto, que ele teve poucas escolhas a fazer e que por isso, conhecera o inferno. A contrapartida – que não sei se é bem um consolo – é que ele jamais fora esquecido.

A fama diabólica do blues, como consta no documentário Remastered – o diabo na encruzilhada, disponível na Netflix, é proveniente de uma dessas campanhas da igreja contra o que era o seu adversário do momento: o blues. Quando perceberam que perdiam fiéis, enquanto os bares ficavam cada vez mais lotados, os pastores começaram a divulgar que aquele estilo musical tão atraente era “coisa do diabo”: a igreja, claro, sempre muito competente em avivar a fama da concorrência. Tal estigma, no entanto, custou caro para Robert Johnson que foi impedido de conviver com esposas e filhos, em grande parte, pelo seu interesse no estilo musical.

Além do incentivo dos pastores da época, a pecha de diabo se consolidou pelo seu desaparecimento por cerca de um ano. Quando retornou, Robert havia se tornado um exímio violonista, o que fez crescer a ideia de que só vendendo a alma ao diabo poderia ter se tornado excepcional em tão pouco tempo. Espalhou-se a história de que ele teria ido a uma encruzilhada, entregado o violão para o diabo e solicitado a habilidade que lhe faltava para tocar. O diabo lhe concedera a habilidade, mas pedira sua alma em troca.

Para os africanos, a encruzilhada era o local de encontro, de cruzamento com espíritos e deuses, mas também de entrega de oferendas e sacrifícios. Combinado com o mito cristão, a encruzilhada se tornou o local de encontro com o diabo. Porém, apesar do temor que a história gerava, toda essa atmosfera sinistra fez de Robert um músico conhecido e admirado, juntando-se a isso, claro, o fato de que ele apresentava uma habilidade jamais vista. Nada como um relato mítico para chamar de seu, afinal. O documentário destaca a sagacidade de Robert ao estimular o mistério, explorá-lo em suas canções, criando toda uma curiosidade sobre si mesmo como artista.

O documentário evidencia o quanto a vida de um artista como Robert Johnson é cheia de sacrifícios maiores do que qualquer lenda. Seu interesse pelo blues tirou-lhe a possibilidade de ter uma vida em família, algo que parecia ser de seu interesse, e o deixou à margem de vínculos afetivos e de uma vida social mais próxima daquilo que, por falta de palavra melhor, chamamos de “normal”. Sem qualquer pretensão de reforçar a magia que emoldura a trajetória que conhecemos de Robert Johnson (mas com muito respeito a esta aura mítica que se formou em torno dele, pois seu talento era e é digno de admiração), o filme mostra que a encruzilhada pela qual ele de fato passou foi dedicar a sua vida à música: recebendo dela toda a glória, mas entregando-lhe tudo de si.