Tulipa Ruiz, o acerto e o desconcerto


Desde o primeiro álbum, Tulipa chegou chegando, mas também pudera. Ela vem de família de músicos e estudou canto lírico por 5 anos na adolescência. Na faculdade, cantou na noite acompanhando grupos musicais diversos. Ou seja, ela já começou cheia de bagagem.

Tulipa canta, compõe e desenha. Além de “Efêmera”, o primeiro disco, com o qual fez turnê pela Europa, América do Sul e EUA, gravou “Tudo Tanto”, “Dancê”, “Cortes Curtos” e “Tu” (meu favorito). As letras exploram o urbano e o natural e, para mim, eles se encaixam perfeitamente nas composições e, sobretudo, na voz dela, que é clara e tem uns vibratos docíssimos (mas não enjoativos). 

As músicas me sugerem o paradoxo do acerto harmônico combinado a um desconcerto presente nas letras. Uma voz afinadíssima, precisa, com todos os arranjos certeiros, agradáveis ao ouvido, combinados à dureza que é crescer e ter que construir uma vida em um mundo que já tem modelos prontos nos quais temos de nos encaixar. 

Em “Dois cafés”, por exemplo, música que está no disco “Tudo tanto” e em “Tu” (que é, para mim, a melhor versão), lidamos com a leveza de uma conversa em que, contraditoriamente, se expõe as dificuldades da vida adulta: “Tem que correr, correr/ Tem que se adaptar/ Tem tanta conta e não tem grana pra pagar/ Tem tanta gente sem saber como é que vai/ Priorizar/ Se comportar/ Ter que manter a vida mesmo sem ter um lugar”.

Tulipa também canta os relacionamentos humanos, cheios de tensões e de disputas de poder que se dissolvem em face do amor – mas continuam presentes. A famosa “Só sei dançar com você” usa a imagem da dança, na qual um conduz e o outro precisa se deixar conduzir. Durante as estrofes lidamos com a tensão de quem será conduzida na dança, tensão esta que se resolve (parcialmente, pois deixa um sinal de dependência no ar) no refrão “só sei dançar com você/ isso é o que o amor faz”.

Ouça Tulipa Ruiz no Spotify.

(Esse texto faz parte da série #OuçaMulheres que comecei na minha página do Facebook.)

Referência:

Enciclopédia Itaú Cultural